Entre Irmãs é um livro sobre mulheres fortes

 

Você talvez já até tenha lido essa história. Entre Irmãs, na verdade, chamava-se originalmente A Costureira e o Cangaceiro. A mudança aconteceu para que a história das páginas combinasse melhor com a pegada do filme, que conta com Nanda Costa e Marjorie Estiano no elenco. A autora adorou. O sucesso foi tanto que a obra se tornou até série na Globo.

Em um papo exclusivo comigo, a pernambucana Frances de Pontes Peebles revelou um pouco mais sobre seu lado autora e como foi ver suas ideias se transformarem em um filme.

 

De onde surgiu sua inspiração para a história?

Tem várias. Acredito que a história já estava dentro de mim, ela só foi se acumulando ao longo do tempo. Desde quando era jovem queria escrever sobre o cangaço, mas de uma maneira diferente. Quando comecei a procurar histórias sobre as mulheres que faziam parte disso, não existiam. Elas foram esquecidas e eu queria escrevê-las. Eu tinha uma boneca de pano que vestia a roupa de cangaceira, minha avó se chamava Emilia e minha tia avó Luiza. Dei o nome das personagens principais em homenagem a elas. Além de tudo, minha vó também era costureira.

entreirmas

Como é ver seu livro se tornar um filme?

Sinto uma gratidão imensa. Isso dá uma vida nova ao livro. Não participei da adaptação, mas acho que o elogio mais forte e bonito que qualquer artista pode receber é saber que inspirou outro artista. O diretor (Breno Silveira) e a roteirista (Patrícia Andrade) precisavam de independência para fazerem sua própria obra. Não é fácil escrever um roteiro de um livro de 600 páginas, mas a Patrícia captou a alma da história.

Qual o seu livro preferido?

Ah, tenho muitos. Mas acabei de ler pela décima vez As Três Marias, de Rachel de Queiroz. Amo esse livro. Acho a Rachel uma joia rara na literatura brasileira. Ela cria personagens femininos fortes e você é transportada para o enredo, quer saber o que vai acontecer… Isso muito importante quando se lê.

Você faz parte do time que acha que primeiro tem que ler o livro e depois ver o filme?

Sim, pois valorizo a literatura. Estamos em uma cultura muito visual. Quando assistimos a um programa não precisamos imaginar. Algo que acho lindo em um livro, como leitora, é que somos parceiros dos autores. O leitor cria junto comigo, quando estou narrando, os personagens em sua mente. Tem que ler antes para valorizar a literatura, o escritor e o romance.

Mais um livro de Maria Dueñas irá se tornar série

A escritora espanhola Maria Dueñas fez as malas e desembarcou aqui no Brasil para conversar com seus fãs e leitores. A Editora Planeta a trouxe para um bate papo sobre seu novo livro lançado por aqui: As Filhas do Capitão.

Em um evento no SESC da Avenida Paulista, ela tirou dúvidas, contou da vida e ouviu histórias daqueles que amam tudo o que escreve — sempre muito atenciosa e com sua tradutora ajudando para língua não se tornar um empecilho.

Consegui que ela respondesse duas das minhas perguntas e uma delas ainda rendeu uma revelação: o livro Destino: La Templanza irá se tornar série — assim como O Tempo Entre as Costuras, que está disponível na Netflix.

Como surgiu o convite para O Tempo Entre as Costuras se tornar série? Você participou de alguma forma da produção?

Na realidade a série não é uma produção original da Netflix, e sim, de um dos grandes canais privados da Espanha, o Antena 3. A ideia da adaptação partiu deles, que fizeram toda a produção. Eu só participei da supervisão dos personagens. Tive uma relação muito próxima a tudo que eles faziam: me contavam sobre o que acontecia, o que estavam fazendo, o cenário, o figurino, mas eu não intervia em nada disso,

Foi só muito depois que estreou na Espanha, onde foi um grande sucesso de audiência e crítica (os leitores ficaram felizes com o resultado e não se sentiram traídos pelo o que viram), que a Netflix comprou os direitos. A série já tinha sido reproduzida em outros países, mas o conhecimento mundial aumentou com isso. Não posso dar muitos detalhes, por que não me deixam, mas vamos fazer Destino: La Templanza. Queremos começar em breve e estamos muito animados.

O que você mais gosta da vida de escritora?

Muitas coisas! [risos] Gosto de sair do meu país, falar com leitores do outro lado do oceano e comprovar, acima de tudo, que as emoções e reflexões são muito parecidas em todos os lugares. Depois de tantos anos trabalhando na vida acadêmica, com uma estrutura pautada por uma programação e calendário, poder administrar meu tempo, tomar minhas próprias decisões e ser responsável pelos meus projetos é ótimo. Não sei porque não fiz isso 25 anos antes [risos]

Karin Slaughter fala sobre suas obras e crimes contra as mulheres

Além de resenha de livros o “Marque Uma Página” agora traz também entrevistas com autores. A convidada dessa semana é a americana Karin Slaughter, autora de obras como Esposa Perfeita, Flores Partidas e o mais novo de todos, A Boa Filho. Apaixonada por narrativas criminais desde criança, ela fala um pouco de como escreve suas histórias e como é importante uma mulher dar voz a outras que foram vítimas de crimes — mesmo que estejamos falando de personagens da ficção.

Você aborda assuntos bem difíceis em seus livros, e que podem até causar um pouco de aflição a seus leitores. Como se sente narrando essas histórias?

Acredito que o medo vem de não saber o que vai acontecer, e eu sei. [risos] Não tenho essa sensação, mas mesmo assim é muito tocante. Nos meus livros é importante que você se identifique com os personagens que irão se tornar vítimas de crimes, para levar o acontecido para o pessoal quando eles morrerem. Como autora, o mais difícil não é narrar os crimes, e sim, mostrar o que acontece depois. Como uma família fica após a morte de uma irmã? De que forma a vida muda? Como é ter medo de perder alguém que você amou a vida toda?

Você sempre leu livros que falavam de crimes?

Sim, minha avó lia também. Na época dela existia uma revista chamada True Crime, que narrava histórias horríveis que aconteciam com mulheres. Ela amava, mas tinha vergonha e escondia os exemplares para que ninguém soubesse. Crescendo na parte dos Estados Unidos onde cresci, era comum falar abertamente sobre crimes. Era como uma fofoca da cidade. Quando eu tinha nove anos, teve um assassino em massa em Atlanta que serviu para abrir meus olhos, ainda muito nova, para como coisas ruins poderiam acontecer com crianças. Afetou minha cidade e maneira como as pessoas interagiam umas com as outras. Quando escrevo, me concentro em mostrar como isso afeta a todos.

Você sofreu preconceito por ser uma mulher que escreve romances policiais?

Meu primeiro livro foi publicado em 2001, e apesar da sorte que tive de ter sucesso desde o começo, as vendas eram difíceis. Os críticos dos jornais eram na maioria homens que costumavam dizer: “ela não deveria estar escrevendo sobre isso” ou “por que ela está sendo tão violenta?”. Nunca diriam isso de um homem. Agora é mais aceito, mas os livros escritos por mulheres ainda têm pouco espaço nas críticas. O que acho interessante é que agora tem uma tendência dos homens escreverem com pseudônimos femininos, porque somos populares ultimamente. Como querem fazer parte das vendas, fingem ser quem não são. As mulheres também já fizeram isso, porque não tinham outra forma de terem seus livros publicados. Então é muito irritante para mim ver esse comportamento. Em 2002 fui a uma convenção de autores de obras sobre crimes e um cara me disse: “é muito desmoralizantes para os homens as mulheres estarem fazendo tanto sucesso”. Respondi a ele que já tiveram 2000 anos e que a gente poderia ter uns aninhos para nós agora.

Por que você acha que esse gênero está fazendo tanto sucesso?

Mulheres leem mais. Nos EUA, por exemplo, 84% dos consumidores de obras de ficção são do sexo feminino, e para mim é importante que nós tenhamos voz. Só uma mulher sabe o que nos assusta. Em Pequenas Grandes Mentiras, temos personagens fascinantes. Uma ama o marido, a outra odeia, uma outra é vítima de abusos… Acho que o apelo é que vários acontecimentos que a gente enfrenta estão sendo contatos. Quando um homem escreve sobre uma vítima de estupro, ela tem duas saídas: se tornar alcoólatra ou muito frágil. Daí, no final da trama, ela faz amor com o mocinho e está curada. Quando comecei a escrever tinha uma personagem que foi vítima de estupro. Na minha história a recuperação dela durou cinco livros. Essa mulher tomou péssimas decisões, bebeu muito, ficou com um cara que era abusivo, teve atitudes para se machucar… E isso acontece muito. Quando o crime é um assédio, a mulher se culpa, sente vergonha. Não há nenhum outro tipo de violência que desperte essa reação. Por isso, acho que contar a história é a parte mais importante do meu trabalho, porque mostro a verdade do que o crime é capaz de trazer a vida da vítima.

Nicholas Sparks fala sobre suas obras e personagens fortes

Olha que honra! Nicholas Sparks, autor de livros famosos como Um Homem de Sorte, Querido John e Noites de Tormenta, passou pela minha mesa de trabalho e checou as obras que eu tinha por lá (sempre foram muitas) antes de batermos um papo há um tempo.

Nicholas é educado, tranquilo, fala baixo e passa uma grande serenidade enquanto conversa. Mas esse perfil “de boas” não o impediu de ser uma máquina de sucessos, tanto nas livrarias quanto nos cinemas. Com 11 adaptações para o cinema assinadas em seu nome (algumas com ele mesmo como roteirista), o americano conquistou o público e fãs ao redor do mundo.

 

As pessoas o abordam mais para falar dos livros antigos do que para falar sobre os novos?

Sim, e tudo bem porque eles são os mais conhecidos. Então não é surpreendente que eles conversem comigo sobre obras antigas. E, claro, muitas das obras mais velhas se tornaram filmes e isso aumenta a reconhecimento que elas recebem.

No final do filme O Diário de uma Paixão os personagens principais morrem juntos. Pra mim esse é um final feliz, para muitos, triste. Como você o vê?

Acho que o filme terminou da melhor forma que poderia ter terminado. No fim das contas, a história era de um cara que ama essa mulher para sempre e que vai ficar com ela até que não precisasse mais ficar. Para mim foi um grande final.

Suas histórias são inspiradas em sua própria vida?

Algumas foram. O Diário de Uma Paixão foi inspirado pela história dos avós da minha ex esposa, Um Amor para Recordar é sobre minha irmã e sua luta contra o câncer, Uma Carta de Amor é sobre o meu pai depois da morte da minha mãe, Querido John foi inspirado no meu primo. Muitos dos meus livros têm raízes na minha própria vida.

Seus personagens são fortes. Você acha que eles têm a habilidade de passar um pouco dessa força para quem está lendo a história?

Acho que sim. Acredito que é inspirador para quem lê, pois são personagens do mundo real. Quero que meus leitores leiam e pensem “isso poderia acontecer comigo”, “isso me lembra a vida de alguém que conheço”, “isso me lembra meus avós” ou “essa é a minha história com meu namorado”. Quero que as pessoas se sintam conectadas com os personagens e os acontecimentos.

Você recebe mensagens dos seus leitores?

Recebo muitos e-mails de pessoas ao redor do mundo. Eu leio todos. É emocionante. Já recebi histórias incríveis e tocantes sobre os motivos pelos quais eles gostaram dos livros. Sobre A Última Música recebi tantas mensagens de meninas que se reconectaram com seus pais depois de ler a história. Uma brasileira, inclusive, me encontrou em uma sessão de autógrafo e me agradeceu. É bem tocante.

No total, tem onze filmes inspirados em seus livros. Você se envolve na produção?

Trabalho de forma bem intensa com os produtores e com o roteirista a não ser que eu mesmo escreva o roteiro. Sou envolvido na escolha do diretor, do elenco…

Aliás, seus filmes têm ótimos elencos! Channing Tatum, Ryan Gosling, Zac Efron, Liam Hemsworth…

Josh Duhamel, Richard Gere!

Você tem planos para um próximo filme inspirado em seus livros ou vai parar na marca dos onze?

Não, vamos continuar criando filmes. Acredito que o próximo será O Guardião e depois desse eu não tenho certeza. Vamos acompanhar para ver o que vem.